Cobras e Lagartixas: uma reflexão sobre ditados e medos

Quem foi picado por cobra não tem medo de lagartixa. Essa foi a frase que captou minha atenção enquanto caminhava nos corredores do museu da Língua Portuguesa. Para falar a verdade, eu não me recordo do contexto da exibição que continha essa frase, mas aquilo ficou na minha cabeça, me pegava pensando nesses dizeres durante alguns momentos dos dias que sucederam minha visita ao museu. Bom, como já disse, não me atentei para saber a origem daquela frase, então, com uma rápida pesquisa, apesar de não haver muitos resultados, descobri que se tratava de um provérbio africano, mas não consegui localizar, de forma específica, a qual país do continente africado esse ditado popular pertencia. Por ser um provérbio, ele carrega uma máxima do senso comum, nesse caso podemos traduzir da seguinte forma: “Quem já passou por grandes aflições, não teme pequenos problemas.” Pelo menos essa é a minha leitura pessoal. Desde o meu primeiro contato com essa frase, mesmo não tendo certeza, eu suspeitava que se tratava de um dito popular, pois a sua forma de escrita era bem característica, possuindo um ensinamento de fácil compreensão.

 O motivo dessa expressão ter ficado tão fixa na minha mente foi porque em um primeiro momento eu a achei muito divertida, pois de uma forma irônica – ou não – eu não me identificava com ela, nem no sentido literal, nem no metafórico. Apesar de ser uma grande entusiasta de filmes trash de terror com animais gigantes, como Anaconda, por exemplo, na vida real quero uma distância considerável de todos os répteis, sejam cobras ou lagartixas (sim, lagartixas são répteis! Eu achava que eram anfíbios, mas o Google me disse o contrário). Logo, se eu tivesse sido mordida por uma cobra, com certeza fugiria com mais afinco de serpentes, mas também não daria moleza para nenhuma lagartixa, porque apesar de não morderem, não são nada simpáticas. Agora, indo para o sentido metafórico e real significado do provérbio, pois ditados não existem para serem entendidos de forma literal, eu também não me sinto representada, uma vez que, cotidianamente, tenho que lutar e despender muita energia tanto nos grandes quanto nos pequenos problemas, e mesmo que já tenha passado por uma mesma adversidade mais de uma vez, ela nunca parece mais fácil de ser enfrentada.

Do meu ponto de vista, o medo é constante em todas situações, pequenas ou grandes, e a intensidade, na minha percepção, parece ser sempre a mesma. De modo prático e lógico isso parece não fazer sentido, entretanto, desde a última vez que conferi, o medo não fazia parte da lista de coisas racionais. Sendo justa, pode até começar de forma justificável, visto que o medo faz parte da vida e, em certa medida, é necessário, atuando como um mecanismo de defesa para que nós seres humanos possamos saber quando é hora de fugir de situações perigosas. Contundo, ele pode crescer e tomar proporções estratosféricas e desproporcionais, levando-nos a um desgaste emocional mesmo quando na realidade o problema é uma lagartixa e não uma cobra.

Não há escapatória: teremos que enfrentar as adversidades enquanto vivermos nesta terra, sejam elas pequenas ou grandes. Muitas vezes, esse fato me trazia certa frustação, porque eu sabia que, independentemente do tamanho do meu problema, o desgaste seria grande e, principalmente, me sentia desapontada comigo mesma, pelo menos inicialmente, por não saber dimensionar o que enfrentava e, dessa forma, todos os meus obstáculos pareciam ser sempre enormes.

Depois de todas essas reflexões sobre como aquele provérbio não se encaixava na forma como eu várias vezes me senti, meditei em algumas passagens bíblicas que me ajudaram a mudar a minha percepção sobre as adversidades que preciso enfrentar. Em primeiro lugar, temos as seguintes afirmações feitas pelo próprio Jesus: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o Mundo” (João 16:33), “[…] E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século. (Mateus 28:20). Nessas falas tenho grande conforto ao saber que Jesus, o Filho de Deus, está comigo todos os dias e me encoraja dizendo que todas as coisas já foram vencidas por Ele. Apesar das minhas falhas e do meu coração temeroso, sei que posso recorrer ao próprio Deus, lançando meus problemas e medos aos pés da cruz e recebendo em troca o conforto que só Ele pode oferecer, e esse movimento de entrega precisa ser feito diariamente. Mesmo quando me entristeço devido ao medo que sinto diante das adversidades, me lembro que Cristo conhece meu íntimo e se preocupa com meus sentimentos, Ele me redime por completo, convertendo o meu medo em coragem através do seu amor e misericórdia, fortalecendo meu corpo, minha mente e meu espírito.

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